A Pedra do Reino (O Deserto...)
Acordas. Acordado, percebes que tudo funciona como se noite
ainda e as luzes estivessem apagadas. Imaginas as pupilas dos seus olhos
dilatadas. Começas a caminhar e teus passos ecoam. Há atmosfera. Sente a brisa.
Na rua, vês o vento levando, devagarzinho, algumas folhas de papel brancas num
passeio rodopiante; divertido.
Tudo em preto e branco e com todos os tons possíveis de
cinza. É uma cidade. Com prédios de dimensões impressionantes. Com janelas
quadradas e equidistantes – não fosse a variação de cinzas todas lembrariam
enormes tabuleiros de damas/xadrez.
Os carros estacionados. Tantos e de tantas marcas
diferentes... Outdoors luminosos lá no alto, oscilando em P&B e anunciando
o que tu, provavelmente, nunca te interessarias em comprar.
Depois de tanto tempo e depois de tanto andar, te afliges um
pouco por não encontrar um alguém sequer. Desconfiando que talvez pudesses,
pensas em voar para encontrar uma alma viva ao menos lá de cima. Mas, lembras:
"estou acordado. Acordei uma vez e há horas".
De repente a brisa para. E todos os papéis bailando e
deslizando como pássaros fincam no chão – como se sugados pelo óbvio.