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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Crônicas do Frio III (08) - O Licor | (09) - A Cigana

Estiano & Caetano




Dança girando como uma cigana numa redoma. Ou como um dervixe na Dança dos Cosmos. Desaguamos; não me doma. 

A mão de Deus é minha e o universo segue no sentido horário; as horas não param, não passam. É o contrário, do contrário, do contrário; Espirais de Estiano. É o avesso, do avesso, do avesso; Sampa de Caetano. 

Dá, sim, para imaginar o mar vermelho. Dar-se para a imagem no mesmo espelho: liquefeito. Li que é feito de dois a felicidade de um. Resta a unidade ser de união ao invés de eliminação. Ele mina a alma, o desalento, fazendo o corpo ser um em nada. 

Nadar na correnteza Gaspare Campari com os olhos, para a boca correr aos lábios da sina. E afastar o vazio de dentro, rechear de prazer e derreter, no colo da amada amante. A li cortando meu ser. Engulo o licor para outra vez transcender.



#PHPoemaDayJune

terça-feira, 7 de junho de 2016

Crônicas do Frio III (07) - A Maquiagem

Caricatura



Tanto esforço para encontrar algo que sustentasse uma nobre caricatura
de si

Vi eram
o tempo, as dores, o vento, amores, lamentos, sabores, 
exemplos e flores, tormentos e cores, momentos autores
Vieram

Quanto esboço no maquiar da realidade, veio a vida e a fez apenas criatura
per se


#PHpomeaDayJune

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Crônicas do Frio III (06) - A Mentira

Que Mera


Morrer
Quero morrer
Não quero morrer
Que não quero morrer
Pensei que não quero morrer
Quando pensei que não quero morrer


Menti

Quando pensei que não quero viver
Pensei que não quero viver
Que não quero viver
Não quero viver
Quero viver
Viver


#PHPoemaDayJune

domingo, 5 de junho de 2016

Crônicas do Frio III (05) - Os Pecados

A Quebra da Quarta Parede

(A Revolta do Pecado)

O Senhor Pecado – Original
Viajou no tempo
Deslizando ao passado – Cardinal
Perscrutou o anjo

Cabeça coçando
Queixo roçando
Olhar recriminando

E para aquele monte – Colossal
Voou sem alento
Divagando a sorte – Abismal
Fulminou o ex-arcanjo

“Hey, leitor!
Acompanhe comigo
Deus tudo criou
Mas sem defesa
Há pena; é pena
Filho do filho não sou
Que culpem a culpa
Pois as transgressões
Não é o transgressor
Aconselho o inimigo
Já que o porvir
Está todo f... Né?
”

Futuro revelado
Conselho mecenas
Esgar revoltado
Depois que é dito:


– “Lúci, seje menas!
”


#PHpoemadayJune

sábado, 4 de junho de 2016

Crônicas do Frio III (04) - A Cicatriz

Alto Relevo


Quero você em mim profunda
mente

Para quando tempo
dores e des
sabores

Te arracarem de mim
A cicatriz em re
levo

Me guarde de esquecer
Cada mal benevo
lente

Que te amar fez
pela minha vi
vência


#PHPoemadayJune

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Crônicas do Frio III (03) - O Cadáver

"De olhos bem fechados"



Abre os olhos 
em desprazer

O nada consome 
Não há ódio
Não há amor
Não há alegria
Não há dor
Recolhe os espólios de respirar
de viver

É casca ambulante
Nada ao ódio e nada
Nada ao amor e nada
À alegria nada e nada
À dor nada e nada

A corda do viver o estrangula
À caça da noturna pela inspirada dormência

O cadáver ébrio de vida
Anseia a morte do sono
Nos sonhos que embriagam a essência

Por isso aos beijos
Por isso aos cheiros
Por isso aos abraços
Por isso aos goles
Por isso aos gozos

Fecha os olhos 
com prazer

#PHPoemadayJune

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Crônicas do Frio III (02) - A Lâmina

A Primeira Vez


Penetrou-lhe a garganta. Por dentro. Mão na base; cabo. Pôs adentro aos poucos, lágrimas brotaram a cada centímetro engolido.

A respiração quase um fardo. A língua teimosa resvalava na dureza sinuosa. E o resto do corpo respondia. As narinas ardiam temerosas e a úvula à míngua. Queixo levantado e suplica desejosa, sustentando o beijo mordaz de uma boca audaciosa.

Olhos não mais no objeto; no teto, lacrimejavam a luxúria implacável do público que assistia e - boquiaberto - inconfessavelmente, pedia: "que jorre o liquido sagrado e nos satisfaça plenamente".

Totalmente tragada pela bainha, finalmente. De fora apenas o talo e as mãos em regalo, braços abertos, formavam a cruz. Da platéia os aplausos e euforia expelida. Puxa de si a lâmina que ameaçou sua vida. Se curva o faquir regozijado e no sorriso o alívio; à sua arte fez jus.



#PHPoemadayJune

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Crônicas do Frio III (01) - O Crush

O Crush (Fixo?)


No final
quisera o crush e...

Ficou na pele as
estacas daquele rush...


Citado na cerne
Do sarau

#PHPOEMADAYJUNE

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Crônicas de Jack (II) - More Than a Pet

"Quando um louco parece completamente lúcido é o momento de colocar-lhe a camisa de força." (POE, Edgar Allan) 


Jack 

the human being

Voltar pra casa é diferente quando se tem a presença de um pet, porque é o mesmo que possuir um membro da família em casa ou até um roommate. Só que um gato é um gato. Então, o que ele faz quando eu chego? Fica lá deitado na sua cama, você deve imaginar. 
Eu diria, sim, mas não é o caso. Se um dia eu chegar e antes de destravar o cadeado do portão o Jack não aparecer subindo escada acima já é motivo para preocupação.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Crônicas de Jack (I) - Jack Origins

"Somos as palavras que trocamos, os  enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos, sem querer."
(FREUD, Sigismund Schlomo)


Jack 

will be his name


É uma narrativa com atraso, delay de quase 4 anos. Essa é aproximadamente a idade do Jack. Não tenho certeza da data de seu nascimento, porque ele já me veio espertinho, com os olhos abertos e desmamado. Mas, antes do famigerado meow ele ainda fazia miw.

A incorporação da preguiça e da folga

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (31) - Dourado e Branco

Signo de Fogo



Oi! Eu sou Você. E já estive no olho do furacão. Não faço ideia se foi a melhor das decisões possíveis, mas tudo me enlevava. E ele me levava. Eu, que não me escondeu nada, permitiu o espaço que ocupava. E eu não nasci Você, aprendi a ser. Então posso escolher quem ser e de que forma. Aceitei e não me culpo... Mentira, sempre me culpava. Lógico era ele quem me puxava pela mão e tudo girava de forma sem precedentes. E eu que nunca me imaginei chover, hoje inundo a vida de tempestades recorrentes.


Hoje, quando escrevo Você e Eu, raízes de energia abundante brotam das folhas do caderno procurando aquele caos... tanto caos. Já imaginando que virá tornar-se fascinante. Era arte, era arte. Assim como me fazia de tela em branco, e me comprimia contra a parede, e me impressionava em aquarela, e umedecia minha textura, e fazia os tons tocarem os céus, e miscigenava em expressionismo, e fazia música das minhas entranhas, e pincelava mais bocas do que eu poderia beijar, e derretia em sustenidos, e fazia o mundo parar e ao mesmo tempo girar, e sussurrava as músicas da libido, e desenhava prazeres na pele, e escorregava meu ponto de fuga, e tocava cada degradê... E no meio de toda aquela mistura, ainda era o castanho que você procurava.

I n c e s s a n t e m e n t e. ~arrepio~

Daquele branco morte, confundido com paz, a flor sempre abria coalescida. Mas a dúvida resistia. Fenômeno de ser Você.

Amanhã, quando o Sol lamber meus olhos alterando os tons, passeando do vermelho ao dourado, me lembrarei mais uma vez daquele mosaico... tão misturado. Lá saboreando cada centímetro do teu tornado esfuziante. Era arte, era arte. E ouvirei tua voz: “permanecer no núcleo de mim irá te proteger de mim, Você”. Mas Eu, eu não acreditava. Fenômeno de ser Você. E eu sei, chorarei... O dia do vendaval, a abdução helicoidal, o choque visceral, a necessidade de ar, a vontade de organizar, o erro em desumanizar, a desproporção na simetria, a imperfeição que eu destruía, o medo de perder meu eu, o desespero em não ter meu Eu, a caricata possessividade, a metódica agressividade, a minha ira na tua compreensão, a tua dor na minha perfeição... E no meio de toda essa clausura, ainda seria o castanho que você procuraria.

A p a i x o n a d a m e n t e. ~calafrio~

Deste dourado paixão, confundido com poder, a flor sempre brotará convalescida. Pela suspeita de uma felicidade vazia. Você é antônimo de Eu, mas ainda existirá a vontade de ser eu e você.


#PHpoemaday

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (30) - Um Tema Passado

Signo de Ar


Se me permites a apresentação, eu sou Eu. O prazer é meu, Você. Desculpe a bagunça. Eu sei que tudo aqui é uma confusão. Peço um pouco de paciência, coisa difícil nos dias aonde a onisciência é uma extrema necessidade exigida para ser ignorada – pois, em todos os lugares vemos donos da verdade (e graças dou às exceções) –, para que faça algum sentido atravessar este portão. Difícil entender a minha cognição, não? É. Desejo-te boas-vindas ao olho do furacão. Quando soube que Você queria conhecer o meu universo, não acreditei. Confesso: quando converso sobre quem é Eu, causo espanto e encanto. E é pelos cantos que traços meus pontos, não sou lá fã de ser o centro. Dar atenção é mais meu recanto.

É. Este é o Auto-Retrato. Gosto de me olhar no ontem para entender melhor quem sou.

Não sabe onde ficar, Você? É o caos, é o caos. É mosaico do meu ser. Venha, sente-se aqui. Deixe-me preparar um café. Quando subi para a estação de metrô, foi que vi tudo acontecer, sabe? As cores misturando, pessoas arrastadas por suas coleiras virtuais, senti uma força me sugando para outra dimensão e minha mente já estava em... O quê? Ah, desculpe! Às vezes incinero a largada ou passo o bastão entre uma modalidade e outra – mesmo que a pessoa não tenha testemunhado o início da primeira –. É uma sina.

Sim. É o Cárcere. Mantenho-o perto de mim para saber que a qualquer momento posso errar aonde vou.

Mas, contextualizando, me vi novamente neste fatídico dia no mesmo lugar, no mesmo horário, no mesmo caminho, cercado dos mesmos rostos. Que já me reconheciam (mas não conheciam), que já mediam meus passos, que já aspiravam minha pele, que já pouco me agregavam, que me faziam cada vez mais robotizado. Preciso de mais. E pelas veias multicoloridas desse multiverso subterrâneo, mudei dois tons. É o caos, é o caos. Contei cinco ciclos de minutos para aspirar novos sons. É mosaico do meu ser. Não me repetir faz parte da minha essência. É uma sina. E eu compreendo que no final, a escolha é o mesmo destino. O objetivo não é desatino. Então é eco e o círculo antes aberto, agora jaz fechado. Percebi que é no caminho que evoluímos. É nas facetas do nosso ser em outros mundos – um segundo de diferença e a realidade é completamente diferente –. É, Você. Não sou fã de ser centro, apesar de ser centro de certos cantos. Não tem como fugir das responsabilidades de não ser santo. Se não há ancoradouro? Sempre há! Já não o disse? Perdão. Existem, sim, nossos destinos de salvação.

Isso. O Silêncio. Não consigo entender como viver dentro dele, porque ele inexiste onde estou.

O desespero que me faz não ser um tema passado acaba me reprisando em ser presente em mim. E ter que ser Eu e provar o eu que sou é cansativo para quem me vê. Vejo seus olhos brilharem e amo esse fulgor, Você. Porém, você tem que entender o castanho como a cor mais bela. Tome aqui uma cerveja, brinde comigo! O café? Ah... Verdade, não é? É o caos, é o caos. Que move o que sente, que dá temperatura a canções, que imprime desejos à flor da pele. Estamos nesse exato momento em outro tempo do que começamos. É mosaico do meu ser. Adorei o seu sorriso. Amei esse beijo entregue, profundo. Mesmo, antes. Quando acontecido só na nossa mente. Melhor agora, fora do relicário que a Cássia cantou. Vamos sair. Vem comigo. Deixa eu te mostrar como vejo o mundo.

(cont.)


#PHpoemaday

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (28) - A Conquista

Presa Primal


Sou um animal
Não tenho dono
Não me domo
Não há domo
Que me
enjaule

Encoleires-me
Encolerizes-me

Tenho passos no tempo
Tenho olhos no espaço
E quando me vês
Já saboreio tua tez
Fincando a presa
primal

Desafies-me
Desafines-me

E se disfarça a presa
De caça a predador
E provoca o cortejo
Aproxima o desejo
É a fera solta que
conquistas

Libertes-me
Libertines-me



---------------------------------------


Conquista em Fá Bordão



Eu, caminho de mim
Tu, destino sem fim
Ele, Pierrot em cetim
Nós, Colombina e Arlequim
Vós, amor vestindo carmim
Eles, fá bordão em bandolim

#PHpoemaday

domingo, 27 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (27) - O Oco

Geração Tulipa


Precisamos de um pouco mais do soro da idade. Entender que, às vezes, um mais um é dor. Que dividendos resultam vaidade e podem restar saudade. Ordens de fatores alteram, sem comutação, associação ou distribuição do que se sente.

Ah! Um soro da idade para aprendermos. Afinal, não é todo mundo que aguenta uma tulipa no meio das pernas. Não precisamos sacrificar o útero sempre que achar o errado no mundo – o mundo não é só um –. Que, graças a Deus, não somos santos. Aceitar que o desejo vem antes do amor e que conhecer língua alheia não é absurdo; estudar cada expressão do idioma, se lambuzar em todos os lábios da linguagem, engolir em dialeto encharcado. Absurdo é esse mundo cada vez pau no oco, transformando pessoas em fantoches programados. Travados pela espada de Príapo que os conduz numa única direção, sugando com o buraco negro a Via Láctea para respaldo à malcriação – o todo sempre está errado e viva a revolução! –.

Ah, que essa adolescência tão terna encontre a fonte ao soro da idade, pelo amor dos deuses! E que observem que orgânico é diferente da cegueira, que somos os mesmo e vivemos e o que você vai ser quando você crescer. Que orifícios e domínios são, no final de tudo, besteira. Quanto mais à pressão der, mais vivemos de pressão – e olha só: com a fórmula certa, pode sim, ser por tesão –. Que abram os olhos aos olhares fugazes que sorvem a barba que delineia o queixo, provocando um malicioso sorriso; recíproco. Ser humano é pecado, é errado, é trôpego, é malfeito, é torto, é vagabundo; é belo ao grego e isso é lindo.

Um soro da idade para que a geração tulipa aguente firme a tortura da verdade a penetrar seu corpo esquálido, recitando o desafio: encontra a perfeição que há no teu próprio umbigo.
É o oco desnecessariamente preenchido, é o lugar incomum – os três poderes dos cachorros–. Um mastro de segurança entupindo o vazio. É o copo de cerveja transbordando sangue coagulado. É a rebeldia infantil. É o repúdio por repúdio. É a luta sempre por um fio – de cabelo com aquele creme de marca super na moda –. É a hora... É a hora...

– Benny! Vodka, água de coco? Pra mim tanto faz... Mas traz uma dose de soro da idade, por favor.



#PHPoemaday

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (24) - A Morte Anunciada

Sem Resposta


Oi. Tudo bem? Acho que sim, né? [microriso embaraçado] Acho que você vai ficar na dúvida do que isso significa, mas espero que no final de tudo entenda.

Vou morrer.

É... Eu sei que todos nós vamos morrer um dia. “É a única certeza da vida”, você disse. [microriso debochado] Mas, é aquilo que nós conversamos e você sabe que estou bem e aceito bem tudo isso. Acho... O que mais choca as pessoas é que eu nunca me importei. Meu corpo entrega minha idade, mas ninguém sabe, além de você lógico, que tenho mais de 200 anos. [ar de riso] É, até natural depois de tanto tempo convivendo, entender que é mais forte do que eu. Quando sabemos que vamos morrer, o choque na hora faz com que queiramos fazer tudo de uma única vez. Mas depois passa... E aí a gente vira normal outra vez.

Não tenha medo de falar o nome nunca mais. Tudo bem? Já te disse que não devemos acreditar que um nome mude completamente a nossa capacidade de viver feliz – ou é felizes? [...] nunca sei –. Geralmente damos a nossa vida por um nome qualquer, um nome de pessoa geralmente, e gritamos aos quatro ventos que não conseguimos mais viver sem. Eu acho isso tão perigoso já que viemos pra ter [...] – ou termos – uma vida tão curta. [tosse seca]

Desculpa! Por falar nisso... Não fica como eu, tá? Não dê tanta importância às coisas que as pessoas não entendem sobre você. Porque a gente vai ficar tentando e tentando mudar a cabeça deles, mas... Você sabe, as pessoas não querem ser dissuadidas. Elas querem ter razão. Aquele nosso diálogo sobre o bom dia, né? As pessoas não querem saber se você está bem. Bem que você disse: perceber isso, nos muda, mas não muda os outros. Não parte de fora, parte de dentro – e espero que antes que partam. [riso interrompido – engasgo]

E nesse eixo eu me ponho. Quantas vezes eu acreditei que já era uma pessoa morta? Quantas vezes conformada com a minha sina, não fiz contato visual e olhei de lado? E desliguei os sentidos para saber sobre o destino de Eurídice? E me controlei para não rir das piadas tão gostosinhas de ouvir? [voz embargada] Não queria morrer mais, sabe? Mas eu sei que agora é tarde. No final da vida a gente sempre quer mais vida – para corrigir os erros do não viver, eu acho –. [respira fundo – chiado sufocado]

Mas, eu sei quem é você. Eu te vi na fila do pão naquela terça-feira “às 17:08 da tarde”. [riso solto – tosse rasgada] Ou acha que ouvir você cantarolar o Último Romance passaria despercebido? [fungado aflito] Acho que não viveria diferente se voltasse alguns meses no tempo, mas iria querer estar naquela padaria sempre que pudesse voltar [fala carregada] e se pudesse mudar, a única coisa seria dar o beijo que você merece até hoje... [choro curto – respiração profunda] E que nunca o terá.

Foi fraqueza sim. Eu sei disso. Mas quem disse na vida que precisamos ser fortes é um imbecil, sabe? Ser forte é uma obrigação cruel. Quando não conseguimos [pausa – pega fôlego], o mundo se envergonha de nós. [pausa longa]

Eu daria aquele beijo antes, hoje, agora. Sempre me senti tão mais livre contigo, mas o medo de te fazer sofrer me fez mostrar indiferença. Que estupidez a minha. Piegas... Beijei babacas que não mereciam meu perfume no ar e... [voz sonolenta] Eu sei, não há mais o que fazer. É crueldade depois de tudo, mas eu não cons e g u i r i a... [silêncio]
Para a morte mão muda saber quando vamos morrer. Não tente fazer nada... Não t e n t e... [inspira profundamente]
Aceito morrer, só não aceito ir embora sem dizer o qua n t o e u t e a m...

► ____________________ 3:18
[recebida às 22:31]
[lida às 22:32]







• • •

[enviada às 22:36]                               
► ____________________ 0:18
 [recebida às 22:36]                              
(...)

[enviada às 22:37]                               
► ____________________ 0:13
[recebida às 22:37]                              
(...)

[enviada às 22:37]                               
► ____________________ 0:12
[recebida às 22:37]                              
(...)

[enviada às 22:38]                               
► ____________________ 0:15
[recebida às 22:38]                              
(...)

   [digitando...]                                         
                                        


#PHpoemaday

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (22) - A Miscigenação

Blues


Ele já havia percebido o comportamento, porém esperava uma posição. Sentado em sua poltrona ao som de uma rádio internacional, experimentava seu chá enquanto lia através de suas lentes a edição de domingo do The Guardian.

Nunca o fizera, mas nesta manhã em especial correu para as noticias policiais e depois as de esporte. Odiava pular as editorias, adorava obedecer a ordem, exata. Os cabelos loiros, recém-aparados, penteados para o lado, formando uma franja em onda, os fios milimetricamente organizados e apesar de horas após o banho ainda permaneciam úmidos.

Estava em frente a lareira em forma de moldura — uma sequência de fotografias mostravam uma linda família —. Pintara a sala inteira de branco e ainda respingava o aroma químico da tinta para madeira. Três sabres estavam dispostos equidistantes na parede às suas costas. Quadros de pintores impressionistas — não ingleses — iluminavam-se com o favor da porta e janelas abertas.

Ouviu barulho na cozinha e aguardou. Alguns minutos depois, ele vem.

Vestido como o vocalista do Sexy Pistols, cabelos arrepiados e tingidos de negro, couro em seu couro, correntes como armadura, espinhos de metal, brincos e piercings. Um lindo rosto trazendo um olhar ferino e um olho roxo contrasta com o verde-acinzentado natural. E, lógico, o essencial: um sorriso machucado de deboche escarnecedor juvenil. Acreditava ser a representação da anarquia, mas alegrava ao pai, sem saber, a beleza que a pintura de sua imagem produzia. Uma bagunça ordenada.

Puxa um banco, senta-se em frente ao homem que placidamente fita o jornal.

— Coroa, sabe o que é miscigenação?

— É uma palavra difícil inventada pra dar significado a algo sem relevância alguma.

— O senhor deveria saber que o dicionário diz que é cruzamento inter-racial que cria indivíduos com características diferentes e que... — O pai olha por cima dos óculos e aqueles longos olhos azuis rapidamente afogam toda a sala.

O filho, em estado de hipnose, vê seu próprio vulto refletido nos olhos do pai.
Perde a respiração por alguns segundos.

— Entendi.

O mais novo sai.
O mais velho vira a página.

É possível ver a notícia sobre uma briga de torcidas organizadas. A página 5 do caderno policial traz a manchete RACIST STREETWA... até onde o amassado permite.

O volume aumenta com o silêncio.
O som passeia pelo recinto.

"... I found a dream that I could speak to/
A dream that I can call my own..."

Desce lambendo o carpete cor de manga-larga.

"... I found a thrill to press my cheek to/
A thrill I've never known, oh yeah..."

Rodopia e escala a lareira pela lateral direita.

"... You smiled, you smiled oh and then the spell was cast..."

Acelera desfocando todas as fotografias e estaciona em uma linda mulher de longos e cacheados cabelos e o maior sorriso que uma vida pôde ter.

"... And here we are in Heaven/
For you are mine at last..."



#PHpoemaday

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (21) - Tsunami

Adeus Panteão



Um imensa fissura. Rachando todo o meridiano. Meia crosta afunda e um degrau a Poseidon é levantado (derrubando-o), rasgando ao meio Afrodite e Dionísio — desfalecendo Príapo —. As águas salgadas chovem rumo ao céu — da boca —.

Zeus grita do alto da tempestade. Regurgita Atena ao longe em eletricidade. No peito Ares, na alma Hades. Oceano inclinado, mais rápido que Hermes avança, revirando e explodindo cada superfície que tocar, inflamando os caminhos como os cavalos de Apolo. As setas de Ártemis tão certeiras, despertam apenas selvagens abissais do coração de Gaia, que adormecida, começa a sangrar — até a vida —. Erupções de Hefesto já cuspiam todas as armas do Inferno. Cronos congelado. Éolo, Boreas e Noto em colisão, estilhaçam Euro e Zéfiro num asfixiante turbilhão.

Não havia composição de Orfeu que aplacasse tamanha catástrofe. Nem beijo de Eros que acalentasse em qualquer estrofe. Ferido Morfeu e ostracizado Hipnos, quanto mais o firmamento era um espelho d'água, mais insuportável era a existência de Himeneu. E o nível do mar sobe impossível e sem razão e toma todos os sentidos espelhando-os em várias direções.

O tsunami eclode.

Arrasta...

R isO
    AleGriaPlaNos
       Momen toSPipoca Film es Ch oc
            OLate sBei JosFoto gRafi as Abr aÇo s ArrE                       piOsVerDadecariNhoCuidaDOPrAzeREsdeSCobertaFilMESsusPirOSjanTaressuR
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A ressaca vem e tudo draga de volta. Deixa o caos no lugar. Parindo a revolta.

E o mais inteligente dos filhos de Zeus decide a melhor questão para o melhor dos momentos: Está tudo bem? Podemos ser amigos agora?

Com os olhos marejados em calmaria e como se uma tragédia nunca irrompesse, a Musa responde delicadamente que será sem companhia que prefere ir embora.


#PHpoemaday




domingo, 20 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (20) - O Incenso

Vampiros

 

Uma fagulha de paixão
E os sem senso sorvem a vida
novamente
derrete a alma
preenche a cama
Inesperadamente
Depois, sedentos
sugam cada momento
ao máximo
tormento

E no desespero da razão
Sorvem o incenso em vontade incontida
horrivelmente
procura a fonte
cruza a ponte
Sofrivelmente
Antes, esvaídos
Retornam a ser desvalidos
num clássico
memento

#PHpoemaday

sábado, 19 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (19) - O Sueco

Incompreensível

 

Penso vez em sempre
Tô falando grego?
Como em grego
A prosódia é
Parecida
Não tenho dúvida:
A ideia seria atingida

Devem existir dias que acordo sueco
e por mais que eu clame
conclame e reclame
Minha essência se perde em eco
do que seria eu. Quem eu?

Como um completo estrangeiro
Sem saber idioma, cultura
ou ter dinheiro
E nos vários
és o que eu julgar
Me sinto menos
brasileiro

Mais alienígena
Clandestino
Forasteiro
As caras de ué!
cortam meu
caro barato

Simples, fácil, parco, natural.

É só esforço de querer saber, mas quem do fundo pega 

o fruto se na borda tem um parecido, afinal?

E desde quando parecido é igual?

Aí, bem...
Aí escrevo
Despejo em linhas e entrelinhas
todo o dessossego
Divido em poesia
Os meus devaneios
Na porra da escrita

Nossa! Menino mal!
Olha...
Entendeu...
Xingamento é mesmo universal.


Quanto maior o embaralho
E mais me tornar indecifrável
Quando faço ecos e ondas
E menos moro em meu corpo
Mais compreensível me torno
Olha que louco!

Tô nem aí que na intenção tenha mel
Quero mais é que se... (completou, né?)
E que abram as comportas da Torre de Babel



#PHpoemaday