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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Crônicas do Frio III (01) - O Crush

O Crush (Fixo?)


No final
quisera o crush e...

Ficou na pele as
estacas daquele rush...


Citado na cerne
Do sarau

#PHPOEMADAYJUNE

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Era Um Garoto (VIII) - Pelos Ares


Empatia, Simpatia e Amorês


"Empatia importa. Dois ouvidos e uma boca."

O vôo 1452 da GOL saindo do Rio de Janeiro para o Recife com a partida marcada às 15:50 recebeu seu último e arfante passageiro de forma cortês e simpática. "Não quer ir embora do Rio, não é garoto?" brincou a sorridente comissária de bordo. Os olhos dela brilhavam. A cada passo até seu assento, o 28F (lá depois da asa direita e próximo ao fundo da aeronave — leu em algum lugar que era mais seguro em caso de acidente), era cumprimentado pelos seus companheiros de viagem e, vejam só!, pelo primeiro nome. Riu-se primeiro envergonhadamente e logo depois achou graça de verdade. "Devem ter falado meu nome mil vezes." pensou, divertindo-se.

Sentar à janela revelava sua leve claustrofobia. Seu negócio, se pudesse, era voar de verdade e não estar aprisionado à mercê de um quarto, em forma de tubo gigante. Mas ainda assim, amava aquilo.

As turbinas ressoaram e, após todos os check-lists, lá estava ele vendo a asa direita formar o côncavo, e o aeroplano rugir pela pista de decolagem até ganhar os ares, enchendo de vida as veias daquele apaixonado. 

No entanto, o coração domou-lhe. Ver o solo se afastando, sentir o frio no estômago e ter sido empático a tão pouco inundou seus olhos de saudades. Empatia não é algo para todos, coisa perigosa... Que só deve ser praticada pelos mais corajosos.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (27) - O Oco

Geração Tulipa


Precisamos de um pouco mais do soro da idade. Entender que, às vezes, um mais um é dor. Que dividendos resultam vaidade e podem restar saudade. Ordens de fatores alteram, sem comutação, associação ou distribuição do que se sente.

Ah! Um soro da idade para aprendermos. Afinal, não é todo mundo que aguenta uma tulipa no meio das pernas. Não precisamos sacrificar o útero sempre que achar o errado no mundo – o mundo não é só um –. Que, graças a Deus, não somos santos. Aceitar que o desejo vem antes do amor e que conhecer língua alheia não é absurdo; estudar cada expressão do idioma, se lambuzar em todos os lábios da linguagem, engolir em dialeto encharcado. Absurdo é esse mundo cada vez pau no oco, transformando pessoas em fantoches programados. Travados pela espada de Príapo que os conduz numa única direção, sugando com o buraco negro a Via Láctea para respaldo à malcriação – o todo sempre está errado e viva a revolução! –.

Ah, que essa adolescência tão terna encontre a fonte ao soro da idade, pelo amor dos deuses! E que observem que orgânico é diferente da cegueira, que somos os mesmo e vivemos e o que você vai ser quando você crescer. Que orifícios e domínios são, no final de tudo, besteira. Quanto mais à pressão der, mais vivemos de pressão – e olha só: com a fórmula certa, pode sim, ser por tesão –. Que abram os olhos aos olhares fugazes que sorvem a barba que delineia o queixo, provocando um malicioso sorriso; recíproco. Ser humano é pecado, é errado, é trôpego, é malfeito, é torto, é vagabundo; é belo ao grego e isso é lindo.

Um soro da idade para que a geração tulipa aguente firme a tortura da verdade a penetrar seu corpo esquálido, recitando o desafio: encontra a perfeição que há no teu próprio umbigo.
É o oco desnecessariamente preenchido, é o lugar incomum – os três poderes dos cachorros–. Um mastro de segurança entupindo o vazio. É o copo de cerveja transbordando sangue coagulado. É a rebeldia infantil. É o repúdio por repúdio. É a luta sempre por um fio – de cabelo com aquele creme de marca super na moda –. É a hora... É a hora...

– Benny! Vodka, água de coco? Pra mim tanto faz... Mas traz uma dose de soro da idade, por favor.



#PHPoemaday

sábado, 26 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (26) - A Lama

Se Joga!


É
pau
pedra
É
o fim
É
o fim
Me suga, areia movediça
Irrompe e não iça
Brasil em
Suiça
e
Me afoga
me afoga
É
vergonha
É
cegonha
Em fuga da liça
País da malícia
Se resolve em
pizza
É
De cá pra lá
De lá pra cá
se joga!
É
Na lama que eu gosto
Me engana
E no domingo a
missa
É
pedra
na janela
É
pau
na cara
É
gozo
na mala
É
dólar
na meia
É
o fim
do Doce
É
o fim
do salgado
É
o amargo
o amargo
e
se joga!



#PHpoemaday

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (25) - Os Sinos

Absolvição


Brisas cálidas trazem dos ombros as finas alças, magnetizando o relevo macio por onde escorregam e descarregam ondas elétricas de cima a baixo. A dança segue até onde a sinuosidade insinuante do corpo limita os movimentos do tecido. Os olhos sugam o desejo um do outro e sem demora, se devoram. As bocas roçam e resvalam, as línguas fluem e confluem, molham-se no interior um do outro e voltam para umedecer o desenho dos lábios e mordem com vontade cada parte tenra. As roupas se tornam caricaturas sem propósito agregadas à estrutura. As mãos dele passeiam pelas costas imprimindo a pressão necessária e tomando-a para si sem sufocá-la. E os braços seguem sentidos diferentes, direito ao norte, esquerdo ao sul, simultaneamente, arrancando grunhidos e provocando abocanhadas durante aquele beijo afogado. Conquista pescoço e nuca, os cabelos dela preenchem os vãos entre os dedos. Toma cintura e nádega, o corpo dela tão próximo que o coração de ambos é um carnaval. Pressão em norte e sul. Gemido descontrolado. As mãos dela procuram descontroladamente onde se aprisionar. Puxa-o com o corpo para trás, trazendo-o consigo, joga a pelve para frente sentindo-o. Crava as garras nas costas e a cada movimento um choque de suor por todos os poros. Abandonados ao banco do carona do Impala 1967 geram energia. Um terremoto compassado se inicia. Membros superiores se confundem numa caótica necessidade de arrancar a fantasia para o mundo. Não mais camisa de flanela e jeans; não mais vestido branco e lingerie. Um nevoeiro de desejo esconde o cenário despudorado dentro do veículo, não fosse o ritmo cadenciado nada se desconfiaria. Frequência aumenta e eleva o volume, retumbes ininterruptos, fortes e desenfreados, seios engolidos, teto rasgado, abdome suado, colo em impacto, membros que se arrastam, dor, prazer, perdidos em si e nos segundos de renúncia a tudo, largando a vida e a morte num vórtex de volúpia e deleite profundo.

O abalo sísmico cessa.
As badaladas se iniciam. Prometem as quatro de sempre.

― Ainda não te entendo, Elisa. ― A imensa estrutura gótica lá fora retumbava quase silenciando-o.

― Não há o que entender, Marco. ― respondia, enquanto vestia-se.

― O casamento é amanhã. Todos precisam saber. Eu mereço sair dessa prisão. Eu já amo você!

― Para! Isso de novo? Combinamos a meses, Marco. Vou casar amanhã, às 20h. Era uma questão de incapacidade dele, eu resolvi e o senhor aceitou.

― Mas por que quis continuar? Fazemos isso toda a semana! Há meses. Não havia necessidade.

Ela olha para o pátio da igreja e, com o ar triunfante, diz:

― Amanhã, sairei daqui deixando o inferno para trás. Cada Ave-Maria e Pai-Nosso rezei em você, Padre. Me case com o Paulo, como combinado.

Ela faz o clérigo descer do carro, perplexo.
O motor ronca, a esperança se vai.
O homem fica, a fé esvai.

J. Gonçalves (25/12/2015)

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Sino da Salvação


Ela corre
Tá quase na hora
O coração pela boca
do estômago

Essas horas em que a morte nos sonda com sua foice
Fazem parte do tempo em que nos enxergamos crias
Cobertas de temores

Os suores percorrem
O delinear dos omoplatas
Escorregam entre os seios
e inundam o umbigo

As fiordes ameaçam adentrar
Seus anseios pela boca
Bolsa lacrimal
e anseios

Essas horas em que a sorte nos estala no coro o açoite
Fazem parte da chance que levam suplicas às nossas vias
Repletas de fervores

Chega a tempo e solta todo o fôlego
olha o relógio
e os sinos
gritam
Corre pelo escuro beco, alterna a
velocidade entre um badalo
e outro
Foice na nuca, alma nos pés
décimo primeiro grito
chaves nas mãos
Alcança a luz do fim do túnel
corpo em conflito
avista a porta
Corre pela vida e
o espírito
aflito
Abre e trancafia a madeira
respira fundo e num
riso de alívio:
Terça-feira já foi
Deus me ajude a
não encontrar o
meu destino na
viela morta

[...]

Porque no final das
contas a culpa é
sempre nossa

#PHpoemaday

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (23) - A Pansexualidade

PanAche


Dreadlocks e alargador
na pele
alvo

Tartarugas maoris
nadam na orelha
alagam

Alargadores abrem
espaço para
o grito

Não ter que ser quem é
Escolher ser quem quer

Contas contam mais
que um
terço

O Pai é o nosso refúgio
na cruz; às vezes
precipício

Que desce pelo pomo
provindo do barro
no início

Vão se os dedos
se não vierem
anéis

Converse é All Star
e Casulo é C&A

Prefere Beatles à feijoada
Baden Baden à Toquinho
Street Dance à Itaipava
Sushi à Samba

De si dono
Miscelânea
Se der, dono
Humana
do seu desejo de
Joaquim e Joana
Gozar ser quem
bem escolher



#PHpoemaday

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (22) - A Miscigenação

Blues


Ele já havia percebido o comportamento, porém esperava uma posição. Sentado em sua poltrona ao som de uma rádio internacional, experimentava seu chá enquanto lia através de suas lentes a edição de domingo do The Guardian.

Nunca o fizera, mas nesta manhã em especial correu para as noticias policiais e depois as de esporte. Odiava pular as editorias, adorava obedecer a ordem, exata. Os cabelos loiros, recém-aparados, penteados para o lado, formando uma franja em onda, os fios milimetricamente organizados e apesar de horas após o banho ainda permaneciam úmidos.

Estava em frente a lareira em forma de moldura — uma sequência de fotografias mostravam uma linda família —. Pintara a sala inteira de branco e ainda respingava o aroma químico da tinta para madeira. Três sabres estavam dispostos equidistantes na parede às suas costas. Quadros de pintores impressionistas — não ingleses — iluminavam-se com o favor da porta e janelas abertas.

Ouviu barulho na cozinha e aguardou. Alguns minutos depois, ele vem.

Vestido como o vocalista do Sexy Pistols, cabelos arrepiados e tingidos de negro, couro em seu couro, correntes como armadura, espinhos de metal, brincos e piercings. Um lindo rosto trazendo um olhar ferino e um olho roxo contrasta com o verde-acinzentado natural. E, lógico, o essencial: um sorriso machucado de deboche escarnecedor juvenil. Acreditava ser a representação da anarquia, mas alegrava ao pai, sem saber, a beleza que a pintura de sua imagem produzia. Uma bagunça ordenada.

Puxa um banco, senta-se em frente ao homem que placidamente fita o jornal.

— Coroa, sabe o que é miscigenação?

— É uma palavra difícil inventada pra dar significado a algo sem relevância alguma.

— O senhor deveria saber que o dicionário diz que é cruzamento inter-racial que cria indivíduos com características diferentes e que... — O pai olha por cima dos óculos e aqueles longos olhos azuis rapidamente afogam toda a sala.

O filho, em estado de hipnose, vê seu próprio vulto refletido nos olhos do pai.
Perde a respiração por alguns segundos.

— Entendi.

O mais novo sai.
O mais velho vira a página.

É possível ver a notícia sobre uma briga de torcidas organizadas. A página 5 do caderno policial traz a manchete RACIST STREETWA... até onde o amassado permite.

O volume aumenta com o silêncio.
O som passeia pelo recinto.

"... I found a dream that I could speak to/
A dream that I can call my own..."

Desce lambendo o carpete cor de manga-larga.

"... I found a thrill to press my cheek to/
A thrill I've never known, oh yeah..."

Rodopia e escala a lareira pela lateral direita.

"... You smiled, you smiled oh and then the spell was cast..."

Acelera desfocando todas as fotografias e estaciona em uma linda mulher de longos e cacheados cabelos e o maior sorriso que uma vida pôde ter.

"... And here we are in Heaven/
For you are mine at last..."



#PHpoemaday

sábado, 19 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (19) - O Sueco

Incompreensível

 

Penso vez em sempre
Tô falando grego?
Como em grego
A prosódia é
Parecida
Não tenho dúvida:
A ideia seria atingida

Devem existir dias que acordo sueco
e por mais que eu clame
conclame e reclame
Minha essência se perde em eco
do que seria eu. Quem eu?

Como um completo estrangeiro
Sem saber idioma, cultura
ou ter dinheiro
E nos vários
és o que eu julgar
Me sinto menos
brasileiro

Mais alienígena
Clandestino
Forasteiro
As caras de ué!
cortam meu
caro barato

Simples, fácil, parco, natural.

É só esforço de querer saber, mas quem do fundo pega 

o fruto se na borda tem um parecido, afinal?

E desde quando parecido é igual?

Aí, bem...
Aí escrevo
Despejo em linhas e entrelinhas
todo o dessossego
Divido em poesia
Os meus devaneios
Na porra da escrita

Nossa! Menino mal!
Olha...
Entendeu...
Xingamento é mesmo universal.


Quanto maior o embaralho
E mais me tornar indecifrável
Quando faço ecos e ondas
E menos moro em meu corpo
Mais compreensível me torno
Olha que louco!

Tô nem aí que na intenção tenha mel
Quero mais é que se... (completou, né?)
E que abram as comportas da Torre de Babel



#PHpoemaday

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Crônicas do Frio II (07) - A Prostituta

A Prostituta


Ditado Popular

Saltos e solitário sobressalto
Amantes no frio asfalto
Na luz pífia do poste
Tristeza presente
Antes: vazio

Nada é tudo a perder [não tentar é perecer]
Aceitar é sofrer [e perdoar sem poder]

Reflexo maquiado em parcas poças
Universo lembrado em bolsas
Além: desejo de parar

• • •

Pode ter certeza: é safada e gosta!
Uivar e apontar; a moral exposta
Trabalhar? Negaria a proposta
Asseverava em desafio

Nome de família a zelar [justiça: tudo é merecer]
Aceitar é dever [e perdoar sem querer]

Casa arrumada e passadas as roupas
Almoço e jantar para várias bocas
Marido humilha em frases loucas
Além: desejo de parar



#PHpoemaday

domingo, 6 de dezembro de 2015

Pausas (IV) - Sobre ser como os porquês

Por que o porquê é tão porque de si?

Vivo me perguntando o por quê?



Poderia, ele simplesmente, como outras palavras se manter e desdobrar-se para ser. 
Mas não o porquê. Por que seria diferente? 
Afinal, ele não quer ser igual aos outros. 
E seria, por quê?
Porque é um cara que se vê diferente.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Era Um Garoto (VI) - Lealdade versus Fidelidade

Provoque o Leal





Lealdade é a capacidade de cuidar mesmo não estando presente.


Me veio esse pequeno desafio nos diálogos da vida (com um amigo que já deu um tapa na minha [cara no sentido figurado]). Talvez duas palavras tenham surgido como sinônimas no nosso vocabulário: Lealdade e Fidelidade. Mas, parou realmente para pensar se elas retratam a mesma importância? O que faz uma pessoa ser leal? O que a faz fiel?

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Pausas (II) - Reviravoltas (e ainda é Agosto)

PAUSAS

Um Break para mudar de tema (novamente!)
Adivinham? Meu orientador do TCC não curtiu meu tema. É. Disse que estava muito abrangente e que eu não conseguiria tecer em 6 semanas um livro com uma abertura tão grande.
C$%#@!
Então pela terceira vez, mudo! E a vida é assim. Só que dessa vez me levantei muito mais rápido pra falar de algo muito atual. Whatsapp! [hehe]

E com certeza que agora vai dar certo, já mando o prólogo (aqui um pouquinho modificado) pensando que "agora vaaaai!"

domingo, 28 de junho de 2015

Crônicas do Frio (28) - O Terremoto

O  T  r     m     o
       e  r e    o t         (Tremores)

Fervendo em febre, 

                                    ela treme, 
                                                      geme, 
                                                                 grita, 
                                                                           chora,
                                                                                      sangra, 
                                                                                                   tosse, 
                                                                                                              contorce, 
                                                                                                                               racha, 
                                                                                                                                          vomita 

e de toda a forma tenta chamar a atenção... 
Na esperança, 
                         desesperada e em vão, 
                                                                 do ser humano...
 

Ter
 

Remorso.

[Já entregamos alvo e artilharia, não temos pena nem de nós. Ao ver destroços a alma esfria]



#PHpoemaday

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Crônicas do Frio (18) - A Transexualidade

A Transexualidade


Não quero falar. Vocês pensam que sabem, mas não sabem.
Não vou dividir. Vocês dizem que entendem, mas não entendem.

É bom e é legal ver e ouvir coisas sobre o que acham que sou.
É tão importante para os outros que digam coisas ao meu favor.

Não quero falar. Eu entendo o esforço em ajudar, mas não ajudam.
Não vou dividir. Eu percebo o sacrifício em me proteger, mas não protegem.

É bom e é legal sentir o amor de vocês por alguém que acham que eu me tornei.
É tão importante para mim que me recebam independente de tudo por isso nem questionei.

Me tratam como um animal exótico.
Me tratam como um artefato biológico.
Me tratam como um ser aquém da natureza.
Me tratam como um pierrot triste na fortaleza.
Me tratam como um doente sem recuperação.
Me tratam como um coitado sem determinação.
Me tratam como um presente de grego no país de Tróia.
Me tratam como um ser humano perdido e sem escapatória.
Me tratam como um aleijado de passado, presente e futuro.
Me tratam como um surdo-mudo correndo no escuro.
Me tratam como um principezinho bancando a donzela.
Me tratam como um menininho que possui uma mazela.
Me tratam como um velhinho que precisa de muleta.
Me tratam como um bebezinho que perdeu sua chupeta.

Me tratam... Me tratam...
Maltratam... Maltratam...

Não quero falar. Vocês pensam que sabem, mas não sabem.
Não vou dividir. Vocês dizem que entendem, mas não entendem.

É bom e é legal e tal... Eu me olho e não me vejo – percebe o desespero? Só eu sei quem sou.
É tão importante, eu sei, mas não sou especial, olhem para mim como igual por favor.

Não quero falar. Eu entendo o esforço em ajudar, mas não ajudam.
Não vou dividir. Eu percebo o sacrifício em me proteger, mas não protegem.

É bom e é legal sentir o amor de vocês por alguém que acham que eu me tornei.
É tão importante para mim que meus pais me recebam... Mas sou mais que o sexo.


E todo ser humano passa por esse estado de mudança que atravesso.
Não preciso que me desvendem, só deixem eu me encontrar.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 16) - A Febre

A Febre


Adentra o Desespero carregando nos braços a Esperança às portas do Hospital. O corpo dela grita: algo não está normal.
O jaleco sem rosto explica: calma, isso é coisa casual.


Trancada no quarto a Solidão arrastando pelos pulsos mais um Sísifo montanha abaixo rumo ao destino fatal. A mente dele grita: algo não está normal.

Os olhos na TV da sala afirmam: calma, isso é coisa hormonal.

Irrompe o Choro jorrando da boca a Miséria na esquina de uma igreja santamente infernal. O estômago dele grita: algo não está normal.

Os homens de lata abatinados e seu gado cospem: calma, isso é coisa trivial.

Invade o Traiçoeiro a Independência arduamente conseguida. Dilacerando corpo, espírito e a dignidade feminal. O último mal da caixa de Pandora grita: algo não está normal

Os juízes dos bons costumes de alma ressecada apontam a vítima e atestam: calma, isso é coisa proposital.

Persegue a Inocência a Justiça irrepreensível, incontestável, abismal. Trovejam gerações, jornais, pais em apelo sem igual. Vitae verte e escorrendo pelo asfalto grita: algo não está normal

O colarinho engravatado e esvaziado em pronunciamento anuncia: calma, isso é coisa acidental.

Injeta a Morte uma fuga dentro das veias nos guetos e leva embora dor, medo e sonho de forma habitual. A convulsividade mórbida grita: algo não está normal.

Os arreios enclausurados em seus carros se convencem: calma, isso é coisa sazonal.

Desfalece a Impotência agarrada ao Efeito Colateral na sala de espera do hospital. O corpo dele (...) é só corpo.

O jaleco sem rosto aos olhares vorazes identifica: calma, isso é coisa natural.


#PHpoemaday