terça-feira, 16 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 16) - A Febre

A Febre


Adentra o Desespero carregando nos braços a Esperança às portas do Hospital. O corpo dela grita: algo não está normal.
O jaleco sem rosto explica: calma, isso é coisa casual.


Trancada no quarto a Solidão arrastando pelos pulsos mais um Sísifo montanha abaixo rumo ao destino fatal. A mente dele grita: algo não está normal.

Os olhos na TV da sala afirmam: calma, isso é coisa hormonal.

Irrompe o Choro jorrando da boca a Miséria na esquina de uma igreja santamente infernal. O estômago dele grita: algo não está normal.

Os homens de lata abatinados e seu gado cospem: calma, isso é coisa trivial.

Invade o Traiçoeiro a Independência arduamente conseguida. Dilacerando corpo, espírito e a dignidade feminal. O último mal da caixa de Pandora grita: algo não está normal

Os juízes dos bons costumes de alma ressecada apontam a vítima e atestam: calma, isso é coisa proposital.

Persegue a Inocência a Justiça irrepreensível, incontestável, abismal. Trovejam gerações, jornais, pais em apelo sem igual. Vitae verte e escorrendo pelo asfalto grita: algo não está normal

O colarinho engravatado e esvaziado em pronunciamento anuncia: calma, isso é coisa acidental.

Injeta a Morte uma fuga dentro das veias nos guetos e leva embora dor, medo e sonho de forma habitual. A convulsividade mórbida grita: algo não está normal.

Os arreios enclausurados em seus carros se convencem: calma, isso é coisa sazonal.

Desfalece a Impotência agarrada ao Efeito Colateral na sala de espera do hospital. O corpo dele (...) é só corpo.

O jaleco sem rosto aos olhares vorazes identifica: calma, isso é coisa natural.


#PHpoemaday

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 15) - O Delírio

O Delírio (Precipitação)


Dia de precipitação...
Chove lá fora...

E eu disse "sim". Mas, por quê "sim"? Achei que não. "Melhor se 'não'".
Mas, veio o "sim". Me toma o "sim". E engole o "não". Mas, ouço o “não”. 
E digo "sim"! E quero sim! Na mente "não"! Na mente "não"? 
No corpo "sim"! O ardor diz "sim!" Balbucio "não"... E o pudor vem: "não"! O estupor quer: "sim"! O suor diz: "sim"! 
[sim...]

Arrancar-lhe pedaços: "sim"! Sentir o sabor: "sim"! Puxar-lhe os cabelos: "sim"! Desfazer-se nele: "sim"! Entregue inteira: "sim"! Afogar-me em mim mesma: "sim"!
Sim... Sim...
[não...]

Agora "Respeito?" não! "Bondade?" Não! "Ternura?" não! "Pureza?" não! "Com calma?" não! "Ser frágil?" não!
Não pare, não... Não pare, não...
Não... Não...

Dentro de mim chove...
La fora, precipitação.

#PHpoemaday

domingo, 14 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 14) - Os Estilhaços

Os Estilhaços (Misturados)


Quem não tem teto de vidro que atir...

[PR'LIIIIIM ZTRAAASH FRLIIIIM SSCRAAASH...]

(...)

[SSCRAAASH PR'LIIIIIM SSCRAAASH FRLIIIIM...]

(...)

[tac... tic...]

Agora somos tão iguais nos erros que estamos ambos misturados pelo chão.




#PHpoemaday

sábado, 13 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 13) - O Futuro do Pretérito

O Futuro do Pretérito (E Se...)


Ela sobe o lance de escadas.
Convicta do que entende e não aceita.

Ele, da porta, a acompanha com o olhar a se afastar.
Convicto do que não entende, mas aceita.

Violão na mão, certa do que não quer.
Coração não mão, certo do que quer.

Ela para.
Ele não respira.

Ela gira levemente o ombro direito pra trás, a cabeça acompanha o movimento ate conseguir fitá-lo. Os cabelos lambem o ombro (que pára no caminho) e escorrem pela testa deixando a mostra apenas seu grande e belo olho castanho.


Ele observa cada gesto que ela faz, seus músculos tensos não permitem ao ar entrar. A ressaca daquele olhar ameaçava traga-lo. O sangue em desespero fervia o corpo inteiro a procura do ar que não vinha, mas resiste sóbrio aquela magia.

Com duvida do futuro ela pensa "E se...", abre o portão e se vai.
Com certeza do pretérito ele sabia... Que depois daquele olhar tudo à frente a entristeceria.

#PHpoemaday

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 12) - O Equilibrista

(P.S: Mudei o gênero por conta da inspiração [rs])

"A" Equilibrista


Adolescente, mãe. Inconsequente, mãe novamente. 
Se une inocente por ser mãe. Maturidade vinda previamente. 
Percebe a vida, mãe. Independente, olhos à frente. 
Trabalha inda criança e mãe. Com duas crianças, segue resistente. 
Separa, prossegue mãe. Responsabilidade surge frequentemente. 
Apaixona e mais uma vez mãe. Adulta, acredita no amor firmemente. 
Dois meninos, uma menina: mãe. Emprego, lar e leito, mulher persistente. 
Vítima de canalha por ser mãe. Foge, revida, mulher combatente. 
Viaja e recomeça, mãe. Filhos a tiracolo, mãe é permanente. 
Labora e protege, mãe. Cuidar dos filhos, da própria mãe e permanecer atraente. 
Compra casa, paga as contas, mãe. Às crias: educa, se sacrifica, futuro diferente. 
Precisa viver, mãe. Casa novamente, muito mais exigente. 
Mais um rebento, mãe. Desdobra, multiplica, mulher definitivamente. 
Não pode do esposo ser mãe. Outro reinicio mulher imponente. 
A vida leva dela o primogênito e a mãe. Arrancado um pedaço, mulher impotente. 
Reergue, arrasada, mãe. Filhos, responsabilidades, mãe ininterruptamente. 
Luta, batalha, mãe. Deusa equilibrista, mulher simplesmente.


#PHpoemaday

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 11) - A Eutanásia

A Eutanásia (A Escolha)
Legenda - *Voz* [Sussurro]


*Se Deus quiser. * 
[Eutanásia]
*Amanhã eu vejo.*
[Eutanásia]
*Se eu merecesse...*
[Eutanásia]
*E se me disser não?* 
[Eutanásia] 

*Deixo nas mãos de Deus.*
[Eutanásia]
*Com medo, ajoelho.*
[Eutanásia]
*Se eu pudesse...*
[Eutanásia]
*E se eu ceder em toda pressão?* 
[Eutanásia] 

*Só Deus sabe.*
[Eutanásia]
*Deixo estar e não desejo.*
[Eutanásia]
*Não vivo sem você.*
[Eutanásia]
*E se de mim eu abrir mão.*
[Eutanásia]

*Por que, [Deus?
Eu*tanásia]
*Vergonha do [espelho.
Eu*tanásia]
*Se do céu [caísse.
Eu*tanásia]
*Sem você a [vida não tem razão.
Eu*tanásia]

*Deus vai [me dar.
Euta*násia]
*Não ajo, [prefiro bocejo.
Euta*násia]
*A culpa nunca é [minha. Já disse!
Euta*násia]
*Por que ninguém [me dá atenção.
Euta*násia]

*A culpa é [sempre do diabo (ou de Deus)!
Eutaná*sia]
*Eu até [reagiria, mas tudo é empecilho.
Eutaná*sia]
*Ah, mas [se eu fosse você.
Eutaná*sia]
*Eu sou a [vítima! O mundo não tem coração.
Eutaná*sia] 

[Deus, Deus, Deus, Deus!]
*Eutanásia*
[Eu até viveria, mas Deus não faz nada direito.]
*Eutanásia*
[Ah, mas Deus me deixou morrer.] 
*Eutanásia*
[Nada fiz na vida! Deus, me dá salvação?] 
*Eutanásia*



*#PHpoemaday*

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 10) - A Artéria

A Artéria (Jogo do Não Acorda)


Desperta. Os olhos no teto. Estes gradativamente assimilam a escuridão. E, no quarto, as imagens assumem palmo a palmo um padrão. Enche de ar os pulmões. De...va...gar... Prende a respiração. Na cama. O calor que emana próximo deita-lhe um breve calafrio de satisfação. Liberta o ar dos pulmões. De...va...gar... Move a cabeça à procura da fonte e o emaranhado de lençóis desnudam dedos numa suplica preguiçosa. Tão próximos que o foco do todo se perde e o quarto é uma mistura acinzelada de tons, sons quase inaudíveis... E só há cores nos perfumes, sabores nos gestos mais procurados e ao mesmo tempo evitados.

Arrisca. Os olhos nos seios da mão que pede. Revela com suave movimento do rosto o pulso por baixo do edredom. Desliza, aspirando o gosto dos relevos, suavemente... Paulatinamente. Suspiros de sonolência se fazem ouvir. Um revirar e a mistura de colcha, coxas e curvas, desenham enlevos que lembra os montes fluminenses. Aguarda o protesto atenuar. Di..ssi...par... Pousa os lábios vagarosamente onde no braço a artéria está evidente.

Prossegue. Os olhos fixos nas linhas sinuosas a seguir. Resvalando o maxilar como acariciar. Tem certeza que não a despertará. "Ao menos não, até chegar onde quero chegar." Revela o colo e o hálito já quente mostra a direção. Seguindo a artéria, a boca sedenta pelo toque ao pescoço - que tanto queria. Viu arrepio. Parou completamente e simulava que jamais ar teria.

- "Estou acordada desde os dedos, Amor..." Ela abre os olhos e desafia: - "pensou mesmo que nesse jogo você me venceria?"


#PHpoemaday

terça-feira, 9 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 9) - O Elefante

(Enquanto Isso no Canal da Descoberta)

O Elefante


Era uma vez... Um elefante.

E um dia decidiu andar na bela selva que conhecia. Saber se seu povo e o mundo o receberia. Sentir a brisa no rijo couro o apeteceria. Brincar com a tromba n'água o divertiria.

Foi dessa vez... Um reles infante.

Sua memória não trai, mas sua paquiderme inocência, ah! ela sim o faria. Porque "todos" e "tudo" só o consumiria. Sofrer a ferro e ao fogo o aguardaria. Ver os seus dizimados o torturaria.

Foi por sua vez... Em pele a fonte.

Encelado no cemitério de ossos, galhos e vida. Sedentas sombras esguias a mastigarem suas forças. Cordas, lanças e olhos cobiçosos refletindo marfim.

Era uma vez O Elefante.

Implacável em revide ao passar na bela cidade que encontrava. Sua memória não trai e a revanche "todos" e "tudo" arrasava. Devolveu de presente o cemitério de ossos, madeira e vida enfim.



#PHpoemaday

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 8) - O Cinza

O Cinza


“Protege, protege e procura!
Corre, corre e estaca!
Ouve... Sente... 
Prova o ar!”

“Derruba, bagunça e espalha
Provoca, foge e esconde!
Geme... Persistente... 
Quer ver chegar!”

“Deita, levanta e percebe!
Espera, espera e dispara!
Saudade... Saudade... 
Vai ao portão buscar!”


“Contente, contente e encontra!

Pula, ladra, quer ‘abraçar’!
Se só enxerga... em tons de cinza... 
Nem parece se importar!”



#PHpoemaday

domingo, 7 de junho de 2015

Crônicas do Frio (Dia 7) - O Cacto

O Cacto


Esquivando para chegar ao centro.

Apto e interessado. Determinado e focado.
As agulhas desejosas, ameaçam.
Cuidadosamente e carinhosamente, aproximando do âmago.

Desejando a todo o momento.
Intrépido e motivado. Esforçado e apaixonado.
Os floretes florescendo, ressonam.
Instintivamente e antecipadamente, esfriando o estômago.

Chegando, não há sentimento.
Estático e consternado. Indignado e discriminado.
As pontas insistentes, procuram.
Definitivamente e imperiosamente, esquivando para evitar o estrago.

Mas, pensando... Porque o lamento?
O cacto não é um pedaço. Inteiro, todo; como enunciado.
As dores evitadas, colaboram.
Inevitavelmente e consequentemente, para sentir amor, os espinhos devem ser abraçados.


#PHpoemaday